A HISTÓRIA DE OUTRAS HISTÓRIAS

                                                                                                                   Sandro Alex Batista de Sousa 


Observando Maryan em suas transformações há algum tempo, uma ave bela e formosa passou a acompanhá-la de longe em suas viagens para visitar o amante, Olaboniel, e decidiu vigiá-la também em sua forma humana. Maryan era uma das bruxas de Tessália, e morava numa pequena vila próxima a montanha. Nova, bela, porém inexperiente nas artes da bruxaria, esposa de Jamal dono da hospedaria. Ela, que se transformava numa grande e imponente coruja, formosa e sedutora. Por ser ainda jovem e aprendiz de bruxa, mantinha em sua casa algumas poções de transformação que não fazia mais uso.

Áquila era quem a observava. Uma ave forasteira, que estava ali de visita para conhecer novas espécies, pois sempre ouvira dizer que nas terras da Gália, do Egito e da Tessália encontraria animais e aves diferentes, criadas por bruxarias, transformações e pelos diversos deuses locais. 

De família nobre, uma águia-imperial que vive nos mais altos montes do continente europeu, uma ave portuguesa. Aquila Adalberti é uma ave soberba, de grandes dimensões, apresentando uma envergadura de asas que pode atingir os dois metros. Uma espécie difícil de se observar, que vive a mercê dos seus hábitos discretos e da inacessibilidade de muitos dos locais onde vive. Por isso a facilidade de observar animais e outros pássaros sem ser notada, pois voa a grandes altitudes. 

Qual não foi sua surpresa num belo dia observar aquela espécie formosa e bela, cortando os ares a sua frente, e passou a segui-la de longe. Como um bom observador ao retornar de seu voo e chegando a vila, Áquila vê o ataque dos salteadores a hospedaria de Jamal e quando os mesmos fugiram levando os burros. Aquila passou a acompanhá-los de longe, vendo e ouvindo a gritaria de um dos burros.  

Muitos conhecem a história deste burro gritante, era o jovem Lúcio que, viajando à Tessália, na Grécia, se hospedará na pousada de Jamal, cuja mulher Maryan, que muitos diziam, versada nas artes mágicas. Curioso por conhecer os mistérios das transformações, e vendo aqueles frascos, tratou logo de despistar Jamal e toma uma das poções. Lúcio sabia tudo sobre as poções de transformação, conhecia até o tempo que duraria. Mas sua curiosidade era mais forte que a razão. Não resistiu e ao ingerir a poção imediatamente é transformado por engano em um Burro — sem perder, no entanto, a sua inteligência. 

Mantendo sua mente em pleno funcionamento, Lúcio sente na pele a maldade do ser humano, pois acaba sendo maltratado pelos salteadores, que o obriga a cargas extremamente pesadas e a andar longas distâncias debaixo de um sol escaldante levando muitas chibatadas. 

Aquila passou a acompanhá-los de longe, foram vários dias vendo e ouvindo a gritaria de Lúcio que não se conformava com aquela situação. Berrava que era humano e que tão somente tinha ingerido uma poção mágica. Mas...quanto mais Lúcio berrava, mais apanhava, os salteadores não compreendiam que aquele zurrar do burro era um grito de socorro. Ao contrário de Áquila e dos outros burros que entendiam claramente o que o Lúcio o burro dizia. 

Áquila acompanhou sem saber o que fazer, toda aquela confusão. Havia se esquecido de Maryan, a bruxa, que ao retornar de sua viagem, notou o saque em sua casa e o sumiço dos burros, ficando bastante preocupada. Ao entrar, viu um de seus frascos que continha uma poção quebrado, e ficará imaginando quem o teria bebido, e em que animal se transformará. Não se importou muito, pois sabia que em alguns dias tudo voltaria ao normal, era questão de tempo. Naquele momento a única coisa que a preocupava era Jamal, onde ele estava?  Será que tinha sido levado? Ele nunca se ausentou da pousada. Ao se dirigir a vila para procurá-lo, Maryan foi informada que o mesmo partirá a sua procura, o que a levou a pensar que logo ele  estaria de volta. 

Áquila conhecia um antídoto para as transformações. No caso de Lúcio não sabia que a situação era passageira, duraria somente alguns dias, imaginou que aquela transformação, sem o antídoto fosse para sempre.  E vendo o tamanho do sofrimento que os humanos os infringiam, ficou apreensivo, precisava fazer alguma coisa. Áquila sabia que uma espécie de rosa rara, cortava o efeito da poção, era o antídoto. Ele sabia que as pétalas desta bela rosa o traria de volta, rosas que não cresciam por ali! 

Foi então que Áquila percebeu que Lúcio havia feito duas marcas no chão com a pata dianteira, uma ao contrário da outra e ficou imaginando o que seria. Será que está tentando mostrar um caminho, uma solução? Áquila então se lembrou de um lugar no qual sobrevoou no Marrocos tempos atrás, enquanto visitava parentes naquele país. 

A águia imperial é uma ave de rapina, exclusiva do Mediterrâneo Ocidental, vivendo entre Portugal e o Marrocos.  Áquila percebeu que as marcas feitas no chão por lúcio tinha o mesmo formato das montanhas do Marrocos, que formava o vale das rosas e tratou de voar para lá. Lúcio mesmo sem querer e sem saber indicará o lugar. Áquila sabia que o vale estava muito longe dali. Teria que atravessar dois países para chegar ao Marrocos, para ela era fácil, pois voava por sobre as nuvens evitando assim correntes de ar contrário, aproveitando o ar quente que o faria planar sem gastar muita energia. 

Durante a viagem de Áquila, Lúcio mais conformado com a situação já não discutia e não brigava tanto, somente observava e imaginava o quanto o ser humano era desprezível, inclusive ele. Quantas vezes foi insensível com um animal. Durante uma pausa para descanso Lúcio encontrou tempo e paciência para meditar e observar as reações do ser humano e também fazer amizade com os outros burros. Na manada havia um outro burrinho muito esperto chamado Ás de copas, já bastante vivido Ás de copas procurou se aproximar de Lúcio. Ao conseguir disse: Por quê urra tanto? Não ouviu os outros, lhe dizerem que é pior, por que não escuta? Assim nessa gritaria ninguém irá ajudá-lo. Ninguém irá ouvi-lo. Você tem que aprender a ouvir. 

-”Posso te contar uma história?” perguntou Às de copas 

Já bem mais calmo Lúcio consentiu balançando a cabeça, no que Ás de copas começou. 

-”Esta história foi contada por um tal Esopo, em uma praça próximo onde eu estava amarrado aguardando pelo meu dono. É a história do Fazendeiro, seu filho e o burro:

-"Um fazendeiro e seu filho viajavam para o mercado, levando consigo um burro. Na estrada, encontraram umas moças salientes, que riram e zombaram deles:

- Já viram que bobos? Andando a pé, quando deviam montar no burro?

O fazendeiro, então, ordenou ao filho:

- Monte no burro, pois não devemos parecer ridículos.

O filho assim o fez.

Daí a pouco, passaram por uma aldeia. À porta de uma estalagem estavam uns velhos que comentaram:

- Ali vai um exemplo da geração moderna: o rapaz, muito bem refestelado no animal, enquanto o velho pai caminha, com suas pernas fatigadas.

- Talvez eles tenham razão, meu filho, disse o pai. Ficaria melhor se eu montasse e você fosse a pé.

Trocaram então as posições.

Alguns quilômetros adiante, encontraram camponesas passeando, as quais disseram:

-A crueldade de alguns pais para com os filhos é tremenda! Aquele preguiçoso, muito bem instalado no burro, enquanto o pobre filho gasta as pernas.

- Suba na garupa, meu filho. Não quero parecer cruel, pediu o pai.

Assim, ambos montados no burro, entraram no mercado da cidade.

- Oh!! Gritaram outros fazendeiros que se encontravam lá. Pobre burro, maltratado, carregando uma dupla carga! Não se trata um animal desta maneira. Os dois precisavam ser presos. Deviam carregar o burro às costas, em vez de este carregá-los.

O fazendeiro e o filho saltaram do animal e carregaram-no. Quando atravessavam uma ponte, o burro, que não estava se sentindo confortável, começou a escoicear com tanta energia que os dois caíram na água."

Entendeu Lúcio a moral desta história? 

- Acho que sim! Respondeu pensativo.

- “ Quem a todos quer ouvir, por ninguém é ouvido, ou vice versa. Relaxe, acalme-se.

Enquanto isso Áquila voava como um raio, e quando batia as asas o som ecoava como de um trovão. Chegando ao vale procurou pela rosa mais formosa e tratou logo de arrancá-la retornando num piscar de olhos. Passaram-se alguns dias desde sua partida.

Ao reencontrar a récua tratou logo de se apresentar a Lúcio, contando a ele que acompanhará todo o seu sofrimento durante dias até ver a marca dos seus cascos invertidos no chão, lembrando-se do vale das rosas que tem o mesmo formato. E que a as pétalas da rosa era o antídoto para as poções de transformação. 

Foi então que Lúcio contou a Áquila qual o significado daquela marca, pois compreendeu por contraste e com a aridez reta e seca do “NÃO” humano o consentimento dos burros era complexo e sinuoso carregado de possibilidades. Continuando ainda Lúcio:

-“imaginei uma letra, um símbolo de fácil desenho, e o esculpi na terra dura, já que não dispunha naquele momento de lápis nem papel e precisava simplesmente marca-lá na terra com os pés”. 

-”Uma letra que com sua forma simples e completa, apontasse e convivesse a infinitude da aceitação. 

-”Há princípio vi que minhas marcas na terra, pata esquerda e pata direita de frente, uma ao contrário da outra era o numeral 8, então coloquei minhas patas de lado e o oito ficou pela metade.

-”Inventei assim a letra “S” que inventou a palavra “SIM” ao contrário do “NÃO” humano.”. 

Áquila prestou bem atenção naquelas palavras e pôs-se a pensar durante alguns minutos. Então virou-se para lúcio e disse:

_”Aprendestes alguma coisa enquanto estivestes burro?

-”Sim!” Respondeu Lúcio.

-“Então é muito linda a letra que inventaste “S” de “SOLIDARIEDADE”, de “SENTIMENTO”, pois foi o que senti ao vê-lo transformado em um burro. “S” de “SALVAÇÃO”, pois me dispus a ir buscar as pétalas tão longe para te salvar. “S” de “SABEDORIA”, pois foi o que adquiristes durante o tempo em que esteve burro, e finalmente “S” de “SAGACIDADE”, pois é o que terás daqui adiante”.

 

E assim Áquila se despediu de Lúcio e retornou para casa. E a letra “S” se tornou uma das mais importantes do alfabeto português, ocupando a décima nona posição em homenagem aos dezenove dias que Lúcio viveu como burro. 

 

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