Um mundo encantado

No último sábado, o educandário parecia outro. Em vez de lápis, giz de cera e tintas de pintura, muita alegria. O pátio todo enfeitado, tinha até a arca de noé com muitos bichos que mãos maravilhosas produziram. Também muita música infantil no estilo ilariê. Cada sala ornada para uma oficina específica, bandeirinhas e cheiro de pipoca estourando. Era a festa da família, e eu, que agora caminho entre livros, recebi uma missão especial: ser o contador de histórias naquele dia.


Não fui sozinho para a aventura (ainda bem). Ao meu lado, duas professoras, cúmplices, maravilhosas — uma com olhos atentos, a outra com um sorriso largo — arrumavam o cenário como se estivéssemos montando um palco de teatro. Eu, já fantasiado de contador (com um chapéu que não obedecia à gravidade e uma roupa de palhaço em duas cores, que insistia em me apertar na cintura), respirava fundo, tentando lembrar se tinha colocado um ponto final ou uma vírgula na última história que contei.


As crianças chegaram,  tímidas, espreitando como pequenos exploradores. Algumas vinham armadas com pirulitos, outras no colo de pais, avós, padrinhos, um verdadeiro exército de proteção, outras carregavam balões que pareciam teimosos dragões voadores. Com a ajuda de minhas cúmplices, as crianças se sentaram no tapete, formando uma plateia atenta mas com aquele ar de que qualquer coisa poderia acontecer a qualquer momento: um choro repentino, uma gargalhada inesperada ou uma fuga coletiva atrás de algodão-doce, ou uma outra brincadeira qualquer.


Comecei a contar tentando encantar. E, como sempre, a história resolveu ganhar vida própria. Um elefantinho dorminhoco virou um amigo, a girafa preferiu ler uma história usando o livro mágico, o monstrinho, coitado, acabou amando a escola onde a ideia era bagunçar. E o patinho feio, enxotado,  virou príncipe em um reino com os da sua espécie. 


As professoras, minhas fiéis escudeiras, entravam na cena com gestos e complementando a história, ampliando cada detalhe. As crianças gargalhavam, apontavam, corrigiam: perguntei, quem tem cachorro, quem tem gato “Não tenho, tenho galinha, tio! O outro, eu tenho dois gatos e assim respondiam. Por um momento tudo parou, eu gelei, onde estão as crianças? Saíram todas ficando na minha frente somente minhas cúmplices; mas a história continuou.


Entre uma risada e outra, percebi que o tempo estava parado. Não havia mais relógio, só aquele círculo mágico de gente pequena acreditando que tudo é possível: monstros que frequentam a escola, elefantinho dorminhoco e girafinha contadora de histórias, que, por uma manhã, viraram heróis de capa torta.


Quando tudo terminou, as crianças, os pais, todos, bateram palmas — não aquelas palmas educadas de plateia, mas o tipo de aplauso que mistura alegria com doce melando nos dedos. Saí de cena sabendo que, no educandário, naquele sábado, não fui apenas um palhaço contador. Fui viajante, ator, inventor… e, principalmente, parte da infância deles e da minha.


E confesso: que nada paga o brilho nos olhos que me deram de volta. Ser contador é viver num mundo encantado.


Comentários

  1. Que lindo relato meu amigo! É um trabalho que ultrapassa a criatividade e o bem estar. Como dúzia nosso poeta Milton, "Todo artista tem de ir a onde o povo está " É isso aí!

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