A Rural que queimava perna


Preste atenção menino! A Rural vai te queimar, se não ficar quieto, se desobedecer seu pai, se desobedecer sua mãe. Vai queimar suas pernas! E as crianças começaram a acreditar naquela história, sobretudo ali no Nova Esperança, um bairro de Belo Horizonte onde passei boa parte de minha infância. Logo todas as crianças compreenderam que aquele automóvel velho, sem cor, e que tinha como motorista um senhorzinho simpático que só ele, era o mesmo que atacava as crianças, deixando pernas mutiladas com grandes marcas de queimadura.

Logo a história se espalhou, a preocupação era com o carro, com a Rural de duas cores que ninguém sabia qual era. Elas compreenderam o alerta: A Rural que queima pernas pode aparecer repentinamente em suas vidas, queimar suas pernas deixando marcas horríveis ou até mesmo retirá-las de suas famílias.

Trata-se de uma lenda, um conto urbano bastante apavorante, tanto que na minha infância, entre sete e dez anos foi muito usada para manter as crianças dentro de casa. Inclusive minhas irmãs chegaram a ser vítimas, não da Rural, mas do medo que ela proporcionava.

Mas qual a sua origem? E qual a razão para ter surgido? O estímulo ao medo, ao pavor para impor regras e estabelecer limites para as crianças, são as ferramentas de uso dos pais, sendo recurso recorrente em todos os tempos e localidades. Os pais buscam no medo a arma para deixar seus filhos seguros em casa.

A segurança dos pequenos era preocupação constante, principalmente das mães que geralmente cuidava da criança. No fundo as lendas eram criadas como uma forma de cuidar, fazendo o uso de histórias contadas a sugerir perigos simbólicos, inexistentes, externos e sempre rotineiros. Muitas lendas e contos não tem registro, ninguém sabe onde e nem como surgiram, mas essa eu conheço bem, me lembro até da menina queimou as pernas na Rural.

Morávamos próximos uns dos outros, naquela época éramos muitos, não havia perigos como hoje, e todos brincavam na rua. Eu e alguns garotos ficávamos até bem tarde da noite, fazendo todo tipo de arruaça e brincadeiras. Numa dessas noites a tal Rural chegou e encostou próximo ao único poste com iluminação na rua. Exatamente onde toda noite nos reuníamos para as brincadeiras. Este era o local preferido de todos, ali terminava a rua Vassouras, a Milton Lages ainda era um córrego sem canalização, manilhas foram colocadas somente para passagem da rua Vassouras para as casas do outro lado do córrego. Estávamos todos ali brincando e num dado momento essa menina começou a chorar e gritava de dor e correu para casa chamando por sua mãe. Não entendemos a razão naquele momento, apesar de dona Maria, a mãe, ir à rua fazendo muitas perguntas sobre o que tinha ocorrido, somente no dia seguinte é que pudemos constatar o que realmente tinha acontecido. 

A menina estava com uma enorme queimadura em uma de suas pernas. Tinha se queimado na Rural. Provavelmente no cano de descarga que estava muito quente devido ao longo caminho percorrido pelo motorista. Imaginávamos que ela, com a perna queimada ficaria em casa. Mas não, ela insistia em sair e a mãe preocupada começou a falar da Rural que queimava perna. 

¬ Não saia que a Rural vai te pegar, vai queimar você novamente ou te levar para bem longe, longe do papai e da mamãe, olha que a rural pega hein?

A insistência da mãe com aquela historia amedrontou a menina fazendo com que ela permanecesse em casa, toda vez que queria sair a mesma historia era contada. O caso se espalhou, por causa da enorme queimadura deixada na perna daquela menina. A historia tomou novos rumos, outras mães começaram a usar também para manter os filhos dentro de casa e foi assim, que se criou a lenda da rural que queimava perna, e através dos tempos foi adquirindo várias fases como toda boa lenda.

Sandro Alex Batista de Sousa

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Canalhas não tem gênero

Um mundo encantado

Reflexões sobre um cadáver