Meu papel na sociedade

Meu papel na sociedade

 

Queria opinar, não me deixavam! Para o feminismo, “Masculino”, para o racismo “branco”. Que opinião você pode ter a respeito!? Esta sempre foi a resposta.

 

Uma das minhas principais problemáticas para me entender, era por quê. Por que eu tentava me assumir como negro. Sendo branco. Ainda me é muito difícil de explicar, provavelmente isso ficará confuso sempre.

 

Minha família é miscigenada, somos muitos e em nada iguais, mas tem um lado dessa família que é formada exclusivamente de pessoas negras, logo, há pessoas mais escuras. Lógico! 

Vivi uma parte da minha infância com eles por causa da morte prematura de meu pai. Fui recebido como um filho por meus tios. Eu não me via diferente, era minha família, meus irmãos, eu os amava, naquele ambiente eu era negro também. 

Foi uma fase feliz, muito feliz. Algum tempo depois, já com tudo mais calmo, fomos separados, infelizmente. Mudei, mudamos. Agora eu já pertencia ao outro lado da família. Fazia parte, não da família como um todo, mas da família normal. Isso não quer dizer que eu tenha deixado de me sentir negro com esta separação, ou de pertencer, afinal somos uma família. Minha realidade é que mudou a partir daí. Imperava agora a minha branquidade, e os privilégios que essa branquidade podia me proporcionar.  

 

Mesmo estando longe da realidade de pessoas negras, algumas vezes eu quis me posicionar com opiniões em artigos e postagens sobre o assunto, mas nunca deu certo. Sempre ficou a impressão que me posicionar enquanto uma pessoa negra era roubar o lugar de fala dessas pessoas, e que, eu não sabia que este lugar era mais complexo do que eu vivia.

Anos depois, aliás, muitos anos depois, já na universidade, é que descobri que não vivi (e ainda não vivo) as mesmas coisas que elas. Só eu não sabia. E que a impressão que eu tinha de estar roubando este lugar de fala, era real, eu estava! Aos poucos comecei meu processo de aprendizagem, de enegrecimento, de torna-me negro, processo interminável, impossível de se concretizar, porque eu jamais deixarei de ser um branco cheio de privilégios. Mas coisas aconteceram, fiz descobertas importantes.
A universidade mudou meu círculo de amizades, outras cabeças, outro modo de pensar. Nas aulas de história descobri a luta e a resistência das pessoas negras. A partir daí comecei a me identificar mais com a “possibilidade” não de ser negro, mas de pertencer de verdade. Talvez para algumas pessoas seja necessário ser posto em uma situação limite para entender o racismo. Não que eu nunca tenha vivido o racismo antes, eu apenas não o havia percebido.

Passei no vestibular, e fui cursar pedagogia na Universidade do Estado de Minas Gerais – UEMG. Lá encontrei tons de pele variados. Como moro na periferia, eu sempre ouvi dizer que pessoas negras eram raras nas universidades, e era. Dura realidade! Mesmo sendo o campus da FAE/UEMG pequeno (o campus estava instalado em pequeno prédio de doze andares), para minha felicidade pude encontrar essa grande diversidade de pessoas. Foi para nós uma grande festa, aprendíamos uns com os outros.  

 

Como acontece nas ciências humanas, nós nos unimos rapidamente, a FAE mais parecia uma grande família. Foi um alívio conversar com pessoas que passavam pelas mesmas situações que eu. A troca de experiências, a realidade social, o racismo institucional velado. Ali naquele espaço encontrei o que precisava. Professores engajados nas lutas sociais. Politicamente ativos, todos de luta e resistência. E para completar havia na universidade um setor especializado neste tipo de reflexão, o Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Educação e Relações Étnico-raciais o NEPER, e que tinha no comando uma professora ativa, uma das mulheres mais atuantes na luta contra o racismo que conheci, e a quem tive o privilégio de ter como professora.

A união de pessoas negras é fundamental. Pessoas negras que já ocupam cargos relevantes têm o poder de fazer com que outras se sintam à altura. Tais referências de empoderamento são fundamentais. Em uma das muitas palestras e debates sobre a luta antirracismo ficou claro para mim que representatividade importa e que espaços de luta dentro da sociedade são essenciais. E mais, que a história do negro deve ser contada e recontada sempre na visão do negro.


O ingresso no ensino superior é uma transição que traz potenciais repercussões para o desenvolvimento psicológico dos estudantes. Este ingresso representa muitas vezes a primeira tentativa importante de se posicionar como pessoa. Muitos dos recém-chegados à universidade estavam acostumados a lutar sozinhos (a maioria era de mulheres), buscando sempre encontrar estratégias de sobrevivência. Assim pareciamos acostumamos com algumas situações. Permaneciam calados. Ficaram fortes na obrigação, mais pela necessidade.


Naquele espaço de reflexão comecei a entender que existia um motivo claro para muitos momentos que passavam desapercebidos, por exemplo, quando uma pessoa do nada desviava ao ver um jovem negro andando em sua direção. Ou porque quando pessoas negras iam fazer compras aparecia um segurança para acompanhar “disfarçadamente”. Ou quando na escola o fulano era chamado de beiço, de macaco, de tição, isso não era bullying. E ainda de quando andando pela praça sete, ponto turístico aqui em BH, com um amigo negro conversando tranquilamente, ele foi abordado de forma violenta por um policial branco, mas a mim nem deram bola. Comecei a entender que tudo isso era racismo. Como eu poderia sentir, se eu não enxergava. Se eu não conhecia as formas de racismo, como a discriminação racial direta, o racismo institucional e o pior, o racismo estrutural.

 

Refletir sobre as questões citadas, me fez entender que não sou negro, tentar me colocar neste lugar foi a maior burrice. Hoje quando olho para meus netos, principalmente as meninas, me dá um nó na garganta, um aperto no peito, de pensar em tudo que essas crianças poderão passar só por causa da sua cor. 

 

Há pouco tempo li em um artigo que no Brasil o racismo se dá pelo fenótipo. Quanto mais aparente for a negritude da pessoa, mais agressivo será o racismo. O racismo é cruel, inferioriza as pessoas, dificultando muitas vezes a percepção do negro como tal, impossibilitando a construção de sua identidade. Sabemos que existem processos aos quais a pessoa negra está submetida nessa construção, principalmente aqueles que ocorrem em situações cotidianas na família, na escola e no trabalho, situações que reproduzem normas sociais dominantes e que tendem a manter a ordem socialmente instituída. Vários fatores tornam complexo o processo de identificação racial do brasileiro. Muitas vezes a percepção que se tem de si mesmo difere da percepção do outro. Assim, muitos indivíduos que se consideram brancos são vistos como negros.

 

Hoje assumo meu lugar de homem branco engajado na luta pela igualdade racial. Espero ter sabedoria para usar meus privilégios no combate aos preconceitos generalizados. Tenho consciência que jamais passarei por aquilo que eles passaram ou vão passar, e que, a luta antirracista só faz sentido quando compartilhada. No Brasil segundo a própria professora doutora, negros e mulheres não são minorias, pardos e negros pelas estatísticas somam um total de 54% da população, mas mesmo assim são submetidas a um processo de desvalorização constante, tendem a se identificar como um povo estigmatizado, sob os rótulos de inferiores, desprovidos de beleza, pobres e incapazes, e fazem parte do segmento da população brasileira que mais sofre o efeito da discriminação e do preconceito, sempre encobertos por frases e gestos ambíguos.


Não devemos fechar os olhos para as minorias, não separando a luta antirracista da luta contra a homofobia, contra o machismo, a gordo fobia e todas as outras lutas.

 

Sandro Alex Batista de Sousa


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