A loira do Bonfim

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Nos anos oitenta morávamos no bairro Nova Esperança na esquina de ruas Vassouras com Milton Lage, bem na beira de um córrego que por ali passava. Nessa época nossa região estava em franco crescimento e o prefeito Mauricio Campos havia determinado o começo das obras da avenida Américo Vespúcio e outras adjacentes.

Fomos então desapropriados da casa em que vivíamos a margem do córrego da futura avenida Milton Lage. Nos mudamos então para a rua Jaguari quase em frente ao portão de entrada do cemitério do Bonfim.

O Cemitério do Bonfim é o mais antigo de Belo Horizonte, inaugurado em 1897. Este cemitério é muito conhecido pelas suas belas esculturas. Cada jazigo traz uma história. É como estar em um museu a céu aberto! É também muito conhecido pelas lendas urbanas.

O cemitério tem duas entradas, uma é essa que dá para a rua Jaguari e a outra fica próximo ao velório na praça do Bonfim, que é a entrada principal. Os muros são altos, os da rua Jaguari mesmo, chegam a cinco metros de altura em alguns locais. Eu estava bastante familiarizado com a região, conhecia tudo e andava tranquilamente pela vizinhança, isso durante o dia e a noite. Como vivi próximo ao cemitério da paz e brincava por lá sempre, nunca tive medo de nada, nem de assombração, nem de alma penada e muito menos de morto. Não acreditava em nada disso.

Já morávamos ali há algum tempo. Eu devia ter entre dezoito e dezenove anos. Nunca tinha visto ou vivido nada diferente. A não ser alguns homens se reuniam em um bar na esquina das ruas Sete Lagoas e Jaguari para contar algumas das lendas urbanas do local. Uma delas é que no começo do século alguns senhores decidiram que na morte os negros e seus descendentes poderiam ser enterrados ali, desde que não se perdesse tempo marcando os nomes. Os nomes de brancos estão lá marcando as covas. Os dos negros não, dizia um eles. Talvez por acharem os senhores da época, que os negros não tinham alma, relegando a segundo plano a questão da identidade. As almas dos esquecidos se foram, junto com as almas brancas, mas uma ficou, e a triste lembrança da segregação que marca uma parte desta história que vou contar depois.

A outra era que bem na calada da madrugada, uma mulher loira, vestida de branco conquistava um homem no centro de Belo Horizonte e o convidava para ir até sua casa. A surpresa? A moradia da misteriosa mulher era o cemitério do Bonfim. Quando chegava neste ponto, a loira, simplesmente, desaparecia. Segundo ele, às vezes, a mulher preferia chamar um táxi da região central até o bairro, e descia ali próximo a entrada do portão que dá para nossa rua.

Me lembro que próximo à esquina de Anfibólios com Jaguari existia um centro espírita onde fui uma vez acompanhado de Vó Ia e alguns amigos. Era exatamente ali perto que ela descia dos veículos e desaparecia.

Eu, como não tinha medo, ouvia sem me importar com aquela besteirada toda. Até que um dia já bem tarde da noite caminhando pela rua Jaguari em direção a minha casa vindo da Pedro II, levei o maior susto com uma mulher alta, vestida de branco parada na esquina da Jaguari e Caparaó, onde terminava o muro do cemitério. Parei por um instante, logo me veio à cabeça a lenda da loira. Continuei caminhado, só que atravessei para o outro lado da rua. Apressei o passo e pelo movimento de cabeça vi que ela me observava, pois, seu rosto estava coberto por um véu branco.

Continuei caminhando apressadamente e olhando para trás, foi quando do nada aquela coisa maldita começou a correr atrás de mim, e a gritar para que eu parasse. A voz parecia um trovão. Alta, rouca e grossa. Nunca tive tanto medo na vida. Quanto mais eu corria menos distancia eu tinha dela, parecia que flutuava atrás de mim, deixando balançar com o vento um véu branco preso a cabeça. Cheguei próximo ao portão do cemitério e ao olhar para trás aquela coisa havia desaparecido. Mesmo assim continuei correndo e quando estava quase no portão de casa ouvi uma serie de gargalhadas que pareciam sair do inferno. Nem sei como cheguei lá embaixo, sei que nunca me esquece daquela noite, e logico, não contei nada para ninguém.

Alguns dias depois, estava lá no bar ouvindo as pessoas contar suas histórias quando chegaram três guardas noturnos que trabalhavam no cemitério. Enquanto bebiam e se divertiam começaram a se gabar dos grandes sustos que davam nas pessoas que passavam pela rua Jaguari. Aquilo me deixou intrigado, será que as gargalhadas foram eles? Será que aquela loira maldita que eu até hoje nem sei se era loira de verdade, era coisa deles também? Será que aquilo tudo foi real? Eu que nem vou perguntar. Desse assunto é melhor esquecer. Nunca mais duvidei de história nenhuma. Pois sempre tem um fundo de verdade naquilo que contam.  As lendas urbanas, sendo geradas no seio da vida cotidiana traz elementos que fazem parte desse cotidiano. Este episódio suscita a reflexão de como narrativas deste tipo habitam o nosso imaginário de modo intenso. Assim cada um que viva a sua.

Sandro Alex Batista de Sousa


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